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Cultura

Festival Favela Sounds comemora 10 anos com 25 mil pessoas ocupando Praça do Museu Nacional de Brasília

Edição histórica levou 20 espetáculos ao Palco Petrobras, promoveu mais de 300 reuniões nas rodadas de negócios, gerou 500 postos de trabalho e possibilitou o acesso de 700 jovens ao Baile com ônibus gratuitos saindo de diferentes regiões periféricas do DF

Foto: @luarabaggi
Foto: @luarabaggi

Da redação 

 

Ao longo de duas noites a cena se repetia: artistas descendo do palco emocionados, enquanto, do outro lado, uma plateia jovem, diversa, em êxtase, cantava, dançava e seguia até os últimos minutos de festa. Foi nessa troca, mais difícil de medir do que qualquer planilha, que o Favela Sounds encontrou a melhor tradução para sua edição histórica de 10 anos que, nas noites de 31 de julho e 1º de agosto, levou mais uma vez a periferia para o centro político do país, ocupando a Praça do Museu Nacional da República, na Esplanada dos Ministérios.

Os números, no entanto, ajudam a dimensionar um pouco do que aconteceu. O festival reuniu 25 mil pessoas presencialmente, sendo 22 mil pessoas no Baile e outras 3 mil nas atividades do Favela Talks. Gerando 500 postos de trabalho, o festival alcançou mais 2,6 mil espectadores por meio da transmissão ao vivo no YouTube e mais de 2800 publicações espontâneas nas redes sociais como resposta do público. A própria estrutura do evento também virou parte do espetáculo. Construída em LED, a cenografia do Palco Petrobras se tornou um dos símbolos visuais da edição, amplamente repostada em conteúdos virais. 

Outro destaque da experiência do público foram os espaços Petrobras, que receberam cerca de 7 mil pessoas ao longo das duas noites. Celebrando as culturas urbanas, o estande montado pela empresa reuniu grafite e pintura ao vivo, customização de peças de streetwear, criação de lambe-lambes digitais e acesso à playlist da Petrobras durante todo o evento. O festival contou, ainda, com uma área de descanso e photopoint assinados pela marca e instalados no centro da arena, ampliando os pontos de convivência e permanência do público durante o Baile.

A pesquisa realizada com o público da edição também reforçou a conexão do festival com as juventudes e com a diversidade das periferias: 52,7% do público foi composto por mulheres, cis ou trans, 61,8% se declararam pretas ou pardas e 78,2% integram o público LGBTQIA+, considerando orientação sexual e identidade de gênero. A idade média foi de 25 anos, com 83,6% da amostra formada por pessoas de até 29 anos. 

E essa não foi apenas uma comemoração de trajetória. A edição mostrou um festival que cresceu sem abandonar a vocação de misturar gerações, ampliar acessos e colocar artistas ainda em ascensão diante de públicos que normalmente estariam reservados aos grandes nomes do mercado.

Ao longo das duas noites, 20 espetáculos passaram pelo Palco Petrobras. Entre os artistas já consagrados, Gaby Amarantos é um dos nomes que marcou essa edição. A paraense transformou a área externa do Museu Nacional em uma grande festa de aparelhagem e recebeu a chegada de seu aniversário, no dia 1º, com direito a bolo e parabéns no palco. Outro destaque foi a carioca Valesca Popozuda, que mostrou a força de uma carreira que segue arrebatando fãs e conquistando as novas gerações, enquanto o paulista Kyan provocou uma das respostas mais intensas da plateia, ao invadir a arena e cantar em meio à multidão.

A surpresa também veio de quem ainda está construindo os primeiros capítulos da própria trajetória. Bia Soull, que lançou seu álbum de debut "Pornografia Auditiva" em abril, e Ciça, um dos principais nomes em ascensão no rap nacional, fizeram suas estreias em festivais diante de uma plateia desse porte e terminaram a edição entre os nomes mais comentados. Stefanie também chamou atenção em uma programação que colocou lado a lado artistas consolidados e apostas da nova música periférica brasileira.

"A gente considera que a edição foi um grande sucesso de público e, mais ainda, em seus objetivos de democratização, acessibilidade e diversidade, além de comprovar para a cidade e para o país que visões não-dominantes também podem ganhar vazões ampliadas. Como de praxe, o Favela Sounds marcou a carreira de novos artistas. Bia Soull e Ciça foram arrebatadoras em suas apresentações e chamaram muita atenção, principalmente por estarem fazendo essa estreia para grandes públicos", afirma Guilherme Tavares, idealizador, diretor artístico e curador do Favela Sounds.

Para Amanda Bittar, idealizadora e diretora-geral do Favela Sounds, o resultado ganha ainda mais significado por marcar o reencontro do festival com o Museu Nacional, depois da edição anterior realizada no CCBB Brasília, em fevereiro de 2025.

"Celebrar dez anos é um marco muito importante para qualquer festival. Foi emocionante voltar ao Museu Nacional e encontrar aquele espaço cheio, com um público atento, participativo e disposto a cantar e dançar até o fim. Os artistas saíram muito tocados pela interação que tiveram. É uma edição que certamente ficará no coração de toda a equipe e, tenho certeza, também no do público", afirma.

 

O acesso também entrou na conta

A dimensão do festival não esteve apenas no volume de público. Durante os dois dias de Baile, dez ônibus por noite saíram de nove regiões administrativas periféricas do Distrito Federal para levar seus moradores gratuitamente ao Museu Nacional e, depois, de volta para casa. Ao todo, cerca de 700 pessoas utilizaram o serviço, em 20 viagens de ida e retorno do Baile. A iniciativa, que já integra as práticas de acessibilidade consolidadas do Favela Sounds, funcionou, mais  uma vez, para ampliar o alcance da programação já inteiramente gratuita.

E a diversidade da plateia também se refletiu nos bastidores, com 500 postos de trabalho gerados, sendo 100 empregos diretos de produção e operação e 400 indiretos. A equipe da edição foi composta majoritariamente por mulheres e pessoas negras, com forte presença de profissionais periféricos e LGBTQIA+. A produção também manteve uma estrutura dedicada à acessibilidade e ao atendimento de pessoas com deficiência, como em edições anteriores.

"É muito importante para a gente ter um time que represente o que o festival também representa para o público: esse ambiente seguro, de pertencimento, onde as pessoas podem realmente ser quem elas são, sem julgamento e sem preconceito", destaca Amanda Bittar.

Mais de 300 reuniões de negócios e novos caminhos abertos

Antes de o Baile do Sounds ocupar o Museu, o Favela Talks abriu a programação da edição comemorativa entre os dias 29 e 31 de julho.  As noites de showcases, realizadas nos dias 29 e 30, registraram forte adesão do público. A programação com MU540, na Birosca do Conic, reuniu mais de 2 mil pessoas no dia 30, enquanto, na noite anterior, a apresentação de Nelson Rufino teve lotação esgotada, com parte do público permanecendo do lado de fora do Ordinário Bar na tentativa de acompanhar o show.

No dia 31, as Rodadas de Negócios também trouxeram um novo recorde para o festival com mais de 300 reuniões entre 38 artistas periféricos selecionados e 28 players do mercado musical convidados, de Brasília e de diferentes regiões do Brasil, no maior encontro de negócios já realizado pelo festival. 

A programação do dia também contou com as gravações da primeira temporada do podcast Favela Talks, acompanhadas por cerca de 400 pessoas em fluxo rotativo, acompanhando as quatro conversas com MU540, Valesca Popozuda, Puterrier e Priscila Melo. O formato, mais descontraído e inspirado em uma entrevista, deve se consolidar como uma das frentes do festival para as próximas edições. Os episódios serão lançados entre agosto e setembro, ampliando para todo o país o alcance dos debates realizados em Brasília.

"A ideia de trazer referências do mercado musical é de provocar inspiração para quem está começando, que é o grande objetivo do Favela Talks: abrir visão para jovens artistas e jovens negócios criativos das periferias da cidade", explica Guilherme Tavares.

Apresentada pelo Ministério da Cultura e a Petrobras, por meio da Lei Rouanet, a edição de dez anos também marcou um novo momento para o Favela Sounds. A parceria inédita com a marca garantiu as condições necessárias para ampliar a estrutura do festival, fortalecer suas diferentes frentes de atuação e oferecer ao público uma experiência compatível com a dimensão alcançada pelo projeto.

Para Guilherme Tavares, "a entrada da Petrobras no Favela Sounds o habilita para um novo momento, já que pudemos contar com a estabilidade e estrutura de uma empresa que há décadas fomenta a cultura brasileira. Ao estarmos atrelados à Petrobras, vamos além de simplesmente acessar o fomento: temos a segurança de estarmos ligados a processos sólidos, dignos de gestores que entendem a importância do financiamento cultural de ponta a ponta, da seleção no edital de patrocínios aos desdobramentos e à sustentabilidade do projeto".

O Favela Sounds 10 anos foi apresentado pelo Ministério da Cultura e a Petrobras. Com apoio do Museu Nacional da República e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, é uma realização da Um Nome – Agência Criativa e da Fundação Nacional de Artes – Funarte, Ministério da Cultura e Governo Federal.

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